‘Coloca um ponto final’: famílias de vítimas da ‘Tragédia do Baldo’ reagem à prisão de motorista

Aluísio Farias Batista, motorista condenado pela “Tragédia do Baldo”, foi preso nesta sexta-feira (26) em Mato Grosso. O acidente matou 19 pessoas no carnaval de 1984.

Parentes das vítimas relataram que a prisão representa uma resposta da Justiça. Maria do Céu Pinheiro de Assis, viúva de um dos mortos, perdoou o motorista.

Outros familiares reviveram a dor da perda após quatro décadas. O aposentado Moisés Monteiro relembrou o trauma ao tentar socorrer as vítimas na madrugada do acidente.

A polícia localizou o condenado rastreando dados sobre a morte do pai dele, ocorrida em 2021. Aluísio usava documentos de um homem falecido em Natal.

O acidente ocorreu em 25 de fevereiro de 1984, quando o ônibus atingiu os foliões. O condenado cumprirá pena de 21 anos em regime fechado.

A prisão de Aluísio Farias Batista, 69, motorista condenado pela “Tragédia do Baldo”, nesta sexta-feira (26), em Mato Grosso, reacendeu lembranças que nunca deixaram as famílias das vítimas do acidente que matou 19 pessoas durante o carnaval de Natal, em 1984.

Quarenta e dois anos depois da tragédia, parentes ouvidos pelo g1 relataram que a captura representa uma resposta da Justiça, embora incapaz de apagar o sofrimento provocado por uma das maiores tragédias da história do Rio Grande do Norte.

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Viúva de Wellington Teófanes de Assis, morto aos 31 anos na tragédia, Maria do Céu Pinheiro de Assis, hoje com 75 anos, revive cada detalhe daquela madrugada. O casal teve um filho.

Ela conta que o marido saiu de casa na sexta de Carnaval para acompanhar os blocos e nunca mais voltou. “Ele era muito ‘farrista’, saiu para beber e eu fiquei em casa com minha filha e minha mãe”, conta.

Na manhã do sábado, após o acidente, percorreu hospitais à procura de Wellington até o encontrar no então necrotério do Hospital Walfredo Gurgel.

“Quando eu fui ver, eu já reconheci os pés dele, quando foi abrindo a gaveta. Eu dei um grito e não tornei mais. Foi um momento muito difícil”

Apesar da dor que atravessou décadas, Maria do Céu afirma que o sentimento em relação ao condenado mudou com o tempo. “Eu já perdoei ele há muito tempo.”

Ela diz que se emocionou ao ver a notícia da prisão, mas sem alimentar sentimentos de vingança.

Joselúcia Merilym de Lima Gomes tinha apenas 8 anos quando perdeu o pai, o sargento da Polícia Militar Acelúsio Borges Gomes, integrante da banda da corporação que animava o bloco no momento do atropelamento.

Acelúsio morreu aos 33 anos e deixou a esposa, então com 28 anos, e três filhas pequenas. “Hoje, com 51 anos, tento me colocar no lugar da minhã mãe e acho que teria enlouquecido. Ela sozinha para cuidar de mim com 8 e das minhas duas irmãs que tinham 7 e 2 anos”, diz.

Ela conta que só muitos anos depois conseguiu dimensionar o impacto da tragédia na vida da família.

“Até os meus quatorze anos, eu não entendi, porque foi muita coisa. Foi muito sofrimento. Mas sem a gente entender que era por falta dele. Porque a vida da gente, quando ele era vivo, era outra coisa.”

Joselúcia lembra que, após a morte do pai, a mãe ficou anos sem receber pensão e precisou criar sozinha as três filhas. Ao saber da prisão do condenado, encontrou novamente a mãe tomada pela emoção.

A bancária Adriana Banhos Teixeira é outra que carrega a dor da perda há quatro décadas. Ela perdeu a irmã, Simone Banhos Teixeira, de 19 anos, na Tragédia do Baldo. Para ela, a prisão desperta um sentimento de resposta esperada pela família.

“Agora ele vai realmente cumprir a pena que ele foi atribuída pela justiça dos homens num acidente que há 42 anos tirou a vida de minha irmã e de mais 18 pessoas em plena juventude. E não vai trazer nenhuma vítima de volta, mas é uma resposta para a família dessas vítimas.”

A Tragédia do Baldo também deixou sequelas em quem presenciou o acidente. O bancário aposentado Moisés Monteiro, 73, trabalhava no antigo Banco Sudameris na Av. Rio Branco. Ele tinha encerrado o expediente por volta das 22h.

Moisés estava lanchando próximo ao local quando ouviu o barulho provocado pelo ônibus desgovernado e correu para ajudar no resgate das vítimas.

Ele lembra que ajudou a colocar feridos em táxis para levá-los ao Hospital da Polícia Militar, o mais próximo da região. “Eu escutei o barulho e fui correndo para tentar ajudar. Foi um caos.”

As imagens daquela madrugada permanecem vivas na memória. Trauma que o acompanha até hoje. “Foi um desespero para socorrer as pessoas, eram muitos corpos no chão. Jamais irei me esquecer, passei uns 15 dias sem conseguir dormir”.

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As investigações partiram da única fotografia disponível do condenado, registrada na época do crime.

Segundo a Polícia Civil, os investigadores descobriram que o pai dele morreu em Tangará da Serra (MT), em 2021. A informação permitiu o intercâmbio de dados entre as polícias dos dois estados.

Durante a apuração, os policiais também identificaram que Aluísio havia emitido um documento de identidade com seu nome verdadeiro em Mato Grosso, em 1995.

Posteriormente, passou a utilizar a identidade de uma pessoa que morreu em Natal no ano seguinte. O momento em que essa troca ocorreu ainda será investigado.

A identidade verdadeira foi confirmada por meio do cruzamento de dados cadastrais, análises documentais e comparação facial.

Quando os policiais chegaram à residência do condenado, ele apresentou inicialmente o nome falso. Após ser confrontado com as provas reunidas pela investigação, confessou sua verdadeira identidade, segundo a corporação.

O acidente aconteceu na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, durante o carnaval de Natal.

Segundo a investigação da época, Aluísio Farias Batista dirigia um ônibus quando perdeu o controle do veículo na região do Baldo e atingiu integrantes de uma banda de música e participantes de um tradicional bloco carnavalesco.

Dezenove pessoas morreram e outras 12 ficaram gravemente feridas. Cerca de cinco mil pessoas brincavam o carnaval no bloco de rua naquele dia. Após o acidente, o motorista fugiu e permaneceu foragido por mais de quatro décadas.

Historiadores associam o episódio com a diminuição no número de blocos de rua e foliões durante o carnaval de Natal nas décadas seguintes.

Após ser preso, ele foi encaminhado ao sistema prisional para cumprir a pena de 21 anos de reclusão em regime fechado.

Fonte: g1 RN